sábado, 20 de janeiro de 2018

AS INSCRIÇÕES RUPESTRES DE MARTÍRIOS – TOCANTINS



Altair Sales Barbosa


Dentro das manifestações das artes rupestres que caracterizam a Arqueologia brasileira, podem ser classificados dois grandes grupos: as pinturas rupestres e os conjuntos de petroglifos.

As pinturas se nos apresentam de diversas formas e cores variadas. Estão situadas em locais mais abrigados, o que tem permitido maior conservação.  Geralmente as pinturas rupestres brasileiras são agrupadas taxonomicamente em estilos. Esta classificação se baseia nas figuras visíveis a olho nu. Com a utilização de técnicas que usam a fotografia infravermelha, este sistema classificatório cai por terra, pois só releva os estilos recentes.

Os petroglifos são sinalações rupestres representados por sulcos feitos sobre uma superfície rochosa e tanto podem ser encontrados dentro de grutas como fora destas em grandes lajedos horizontais ou em grandes blocos existentes nos rios ou nas margens destes. Alguns apresentam vestígios de pinturas nos sulcos.

Uma das manifestações rupestres mais conhecidas no Brasil está localizada na Ilha dos Martírios, no rio Araguaia, nos atuais municípios de São Geraldo e Xambioá, Tocantins. Esta manifestação integra todo um conjunto de outras manifestações rupestres localizadas à margem esquerda do rio Araguaia, na Serra das Andorinhas, no estado do Pará. Esta serra é formada por granitos bastante antigos, de idade pré-cambriana, alguns com alto grau de metamorfismo.

A mesma formação rochosa caracteriza os matacões que formam a Ilha dos Martírios, no Tocantins. Provavelmente, a irradiação do conhecimento dessas inscrições rupestres esteja marcada por questões ligadas à mitologia, que sinaliza algum tipo de Eldorado, principalmente o aurífero.

Seu conhecimento parece remeter ao ano de 1613, quando a primeira expedição chefiada por André Fernandes chegou ao local, em busca de ouro. Os registros também apontam a presença de Bartolomeu Bueno da Silva, no final do século XVII, que buscava pepitas douradas, mas principalmente índios para escravizá-los. Atribui-se a Bartolomeu Bueno e a outro bugreiro chamado Manoel Bicudo o nome Martírios, porque quando chegaram ao local, em 1682, notaram semelhanças entre as inscrições rupestres ali encontradas com instrumentos utilizados na crucificação de Cristo. Há, também, o registro de uma corrida do ouro entre 1719 e 1725, próxima ao rio Paraupava, antigo nome do rio Araguaia.

No século XIX, a visita de aventureiros à região foi também muito intensa. Os registros históricos apontam que em 1844 o viajante francês Castelnau esteve em Martírios, chegando a relatar nas suas anotações dados sobre a região.

Em 1888, o antropólogo alemão Paul Ehrenreich, que já havia desenvolvido estudos sobre os Karajá da Ilha do Bananal, decidiu descer o rio e chegou até aos Martírios, fazendo minucioso estudo sobre as inscrições. Ehrenreich copiou a maioria das figuras, divulgando-as nos seus trabalhos, mas sempre às associava a conhecimentos astronômicos dos indígenas.

Por estas e outras razões, a região arqueológica dos Martírios é bastante conhecida e procurada por turistas, principalmente quando o rio se encontra no nível mais baixo, expondo os matacões.

Com a criação do estado do Tocantins e suas universidades alguns pesquisadores continuam a conduzir trabalhos de busca de informações na região. Pelo que conhecemos do atual panorama da arqueologia brasileira, essas manifestações rupestres são comuns em diversas áreas do Brasil.

No caso específico de Martírios devem ter sido confeccionadas por índios em atividades sazonais de pesca, com o rio baixo, o que coincide com o período de pesca no Araguaia e seca na região.

Um outro atributo quanto à sua confecção deve estar associado a horas de ociosidade. Como à época, segundo relatos, havia fartura de peixes, este fato deveria proporcionar aos indígenas tais situações, que deveriam ser preenchidas por alguns com dotes artísticos.

Atualmente, os índios que habitam a região são os Xambioá que falam língua Karajá e têm forte relação com os Karajá da Ilha do Bananal.

Com relação à interpretação dos símbolos rupestres do Brasil, há duas correntes bem definidas. Há aquela corrente que reúne defensores de que todas essas manifestações, feitas com marcas que os próprios indígenas conhecem, funcionam como marcadores de território.  E há aquela corrente que classifica as manifestações rupestres como representações artísticas de determinados grupos, sendo assim, não há como interpretá-las, porque a arte não é feita com este objetivo e sim, como expressão simbólica que deve ser apreciada.   



sábado, 23 de dezembro de 2017

A SOBERBIA E O JARDIM DA HUMILDADE


Dedicado a Honorato Ribeiro dos Santos 
de Carinhanha

Altair Sales Barbosa

Diz uma antiga lenda que quando esteve na Terra, Jesus usou seus poderes para conhecer todos os ambientes do planeta. Chegando ao cerrado, ficou tão impressionado que escolheu esse local para fazer um jardim. Assim nasceu o Jardim da Humildade. Era lá que Jesus se refugiava para cultivar a sabedoria.

Naquela ocasião um homem chamado João, de boa situação econômica, ao ouvir Jesus pregando ficou impressionado com tanta sabedoria. Foi então que aproximando-se de Jesus, o convidou para almoçar em sua fazenda.

Ao chegar o dia do almoço, João pediu aos criados que preparassem uma rica e variada refeição, pois iria receber em sua casa um homem muito sábio.

... João, ansioso, não via o tempo passar. Olhava para o horizonte à espera de Jesus, mas Jesus não aparecia.

Certo momento, um pouco depois do tempo combinado, João avista um mendigo vindo em direção à sua casa.  Ao aproximar-se, o mendigo, dirigindo-se a João, pede um pouco de comida. João ordenou aos criados que lhe preparassem um prato e dirigindo-se ao mendigo disse:

- Aqui está sua comida, pode saciar-se. Só lhe peço que assente no toco, ali no canto do quintal, porque hoje estou esperando uma pessoa muito especial para almoçar comigo!

O tempo foi passando e nada de Jesus aparecer. João, angustiado de tanto esperar, perdeu a esperança e ordenou aos criados que atirassem a comida aos porcos, pois seu convidado não mais viria.

Meses depois, indo à cidade, João encontra novamente Jesus falando ao povo. Espera a pregação terminar, se aproxima de Jesus e diz:
- Que grande desfeita a sua; eu o convidei para almoçar, fiz um banquete e você não apareceu!
Jesus então lhe falou:

- Eu fui João e fiquei muito agradecido pela comida. Você ordenou aos criados que me servissem numa vasilha e pediu-me para eu assentar no canto do seu quintal, alegando que naquele dia iria receber um ilustre convidado...

A lenda ainda ecoa pelos quatro cantos do mundo, sussurrando, pela voz dos ventos, que humildade e sabedoria sempre andam de mãos dadas.  



sábado, 9 de dezembro de 2017

AS CHUVAS CHEGARAM AO CERRADO


Altair Sales Barbosa        

Iniciou a estação das chuvas, a atmosfera certamente ficará mais limpa das poeiras, das fuligens oriundas das últimas queimadas, o calor será amenizado e até os rios começarão a ter mais águas, algumas represas iniciarão a retomada de suas reservas e assim por diante. Essas pequenas amenizações farão até que esqueçamos que há bem pouco tempo estávamos vivenciando um período caótico de seca e assim, a vida continua...

As águas que enchem os rios, logo vão parar no mar, aquelas que precipitam sobre as áreas urbanas vão escoar rapidamente e terão suas chances diminuídas para infiltração nos solos, porque esses se encontram impermeabilizados pelo asfalto. Logo surgirá um pequeno veranico e este será capaz de despertar novamente nas memorias, de que os rios estão secos e que temos que enfrentar novamente a falta d’água. Termina o veranico e tudo se apaga das memórias. Tudo parece voltar ao normal. Até que a estação seca chegue novamente, aí recomeçam movimentos, seminários, críticas, audiências públicas etc. E assim, o ciclo deve continuar por mais uns cinco a dez anos, quando as águas dos córregos, dos poços e dos rios desaparecerão por completo e então será tarde demais. Isto acontece porque nos falta entender que a Terra é um sistema dinâmico, cujos elementos não estão superpostos, mas interagem formando complexos ecossistemas.

Dessa forma também funciona o Sistema do Cerrado, de cujo equilíbrio dependem as outras matrizes ambientais brasileiras. Aliás, nem sei porque ainda faço esta afirmação, pois já venho falando isto há mais de quarenta anos. O padrão pluviométrico do cerrado, já enfrentou diversos impactos naturais, como Glaciações, El Niño, Lá Niña, mas de modo geral, tem permanecido o mesmo por milhares de anos. Como prova desse quadro é a adaptação das plantas ao regime pluviométrico de duas estações definidas, uma seca outra chuvosa. Entretanto, a quantidade de água que hoje dispersa do cerrado vem diminuindo de forma significativa e irreversível pela ação do homem.

Uma dessas ações pode ser caracterizada pela retirada da cobertura vegetal nativa, impedindo dessa forma a retenção das águas pluviais nos lençóis subterrâneos, que são alimentadores de cursos d’águas superficiais. Outras ações se caracterizam pela captação das águas dos rios para irrigação em larga escala, a água dessa forma se perde pela evaporação. Outros fatores que provocam defluências do curso superficial principal em grandes proporções para canais longos e profundos, podem provocar de forma parcial ou irreversível o desaparecimento do corpo hídrico que os alimenta.

O fenômeno da urbanização que assola a contemporaneidade, com pavimentação que cobre grandes espaços, favorece o escoamento rápido das águas das chuvas, que por sua vez pouco infiltram no solo, provocando cheias ou enchentes que trazem como consequências transtornos urbanos e o mais grave ainda é que impulsionam as águas na direção da calha dos corpos hídricos que com o aumento da velocidade chegam mais rápido aos oceanos.

A retirada da cobertura vegetal natural acelera os processos erosivos, que por sua vez provocam os assoreamentos. Mas a parte da água continental mais afetada trazida pelas chuvas é aquela que forma o sistema de águas subterrâneas, que é um reservatório no ciclo hidrológico, que se localiza abaixo da linha do solo. A fonte imediata da água subterrânea é a precipitação que infiltra no solo em virtude de diversos fatores como porosidade e captação pelas raízes da plantas, embora a fonte imediata seja a precipitação a origem e destino final dessas águas são os oceanos.


Essas águas são depositadas num primeiro momento nas camadas superficiais do solo, formando o lençol freático, que uma vez saturado penetra lentamente até encontrar impermeabilidade, formando ao longo de muito tempo os lençóis profundos denominados de lençóis artesianos ou aquíferos. Os aquíferos do cerrado se localizam entre os poros de rochas sedimentares, mas também são encontrados nas galerias cársticas que foram delineadas pela história evolutiva do planeta. Seu deslocamento é lento, todavia, mais dias, menos dias, chegam aos oceanos, para iniciarem um novo ciclo hidrológico. Os aquíferos são responsáveis pelas nascentes que dão origem a maioria dos rios do cerrado. Sua existência está na dependência das águas precipitadas e de suas captações principalmente pelas vegetações de raízes profundas e de sistemas radiculares complexos. Se a vegetação for retirada ocorre considerável variação da quantidade de água contida nos aquíferos, o que pode culminar com seu desaparecimento, por isso não basta apenas olharmos para a atmosfera esperando as chuvas, temos que ser vigilantes com o que acontece ao nosso redor e lembrarmos mais uma vez, das reservas de água que ainda se encontram debaixo dos nossos pés, porque o dia que essas reservas desaparecerem, certamente surgirá uma situação de caos social, com consequências inimagináveis.